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PPP 24: Ensaios Psicanalítico sobre Panópticos, Perversão e Patriarcado no Big Brother Brasil

 






Como um panóptico moderno, o BBB explora de maneira intensa, os desejos e pulsões dos confinados em um ambiente controlado, que intensifica as angústias e as defesas narcísicas. Como a psicanálise, enquanto ferramenta de observação dos comportamentos expostos no programa, pode servir de dispositivo crítico ao sistema patriarcal que regula o "jogo" e propõe a busca por uma liberdade relacional? É fato que o panoptismo é centenário. O conceito que funda a ideia do BBB, foi desenvolvido pelo filósofo e jurista inglês Jeremy Bentham no século XVIII. Apesar de ter sido concebido como um projeto arquitetônico, tem como conceito principal a ideia de controle social pelo viés psicológico. Consiste em uma prisão circular com uma torre de vigia no centro em que os aprisionados não podem vê-la. Por outro lado, o contrário é possível. Nitidamente, a ideia de Bentham está associada ao domínio dos corpos, infringindo restrições, não necessariamente físicas, mas com características  violentas intrínsecas no esquema intelectual. A autorregulação por medo. Aqui, mesmo antes de Freud, já podemos falar sobre recalque dos impulsos.

De outro modo, é possível pensar a psicanálise, tanto como um contraponto ao controle social, quanto como um regulador que busca diminuir os efeitos das pulsões e propiciar uma autorregulação menos sintomática.  Para Freud, ser  civilizado passava por uma normalização do desejo a partir da normatização da libido, isto é, admite-se a necessidade de controle das pulsões para um melhor uso social da libido. Em uma relação conceitual com Bentham: contenção da pulsão por autorregulação.

Sob este aspecto, a obra "1984" de Orwell emerge como uma metáfora da relação entre angústia, admiração e desejo de controle, presente também no BBB.  É um livro que dá conta da relação entre angústia, admiração e maravilhamento do homem moderno e sua experiência do mundo ocidental pós-guerra. Para além de prever alguns dos mecanismos de controle social, estruturaliza a partir da ficção, parâmetros para a realidade no contemporâneo. Mesmo parecendo antagônica a ideia de Orwel, o confinamento voluntário e a superexposição no programa partem de um pressuposto advindo da necessidade de ser visto e admirado, mesmo que isso implique em abrir mão da própria gerência de si mesmo. Aqui, ser controlado é ser visto, objetificado e categorizado.

Essas características são importantes na construção do desejo, ao mesmo tempo  que reforçam narcisismos e sadismos como defesas concomitantes  e/ ou simultâneas em um mesmo indivíduo. Porque neste território, é a relação com poder que determina o trabalho mútuo destas defesas, uma vez que é ele quem dá o sentido do desejo de quem se conecta a um processo de confinamento voluntário e de superexposição.

A casa - como território de ação -  reforça estereótipos juvenis de fantasia, com decorações regredidas, fomentando delírios de onipotência e defesas retrógradas. Diferente do espaço de Orwell, estar confinado e observado se configura como escolha. Quem somos quando alguém está olhando o tempo todo? É possível sustentar os discursos étnicos, feministas, progressista, liberal… na integralidade? Onde me escapo do confinamento? Há integridade psíquica se ao mesmo tempo que é necessário manter uma autorregulação, uma força invisível e imprevisível controla e observa os atos e atitudes dos indivíduos em direção a sua dissociação? O BBB, como um microcosmo da sociedade, revela as engrenagens do poder e do controle social, onde a psicanálise pode atuar como ferramenta crítica e libertadora.

Soma-se a isso modos concentidos de tortura, que fomenta e “fermenta” nos confinados todo o conteúdo recalcado que emerge como repetição. Reflexo. Projeção. Introjeção. O superego surge como defesa patriarcal introjetada, na qual fomos condicionados a acessar. O confinamento diminui os territórios em que nos agarramos para ser quem somos, restringindo-nos a introjeções e projeções infantis. Dissociados, chafurdamos na mesquinhez dos estereótipos prontos, tendendo a objetificação dos sentidos, transformando-os em objetivos deturpados.

Em Betham, vencer é autocontrole e obediência. Desaparecer na hipótese de ser olhado. Em 1984, fugir é a solução. Orwell propõe uma necessidade de individuação. Preciso ser. No programa, as questões formuladas por Bentham e Orwell são mediadas pelo prêmio em dinheiro. Este é o elemento que regula os interpelamentos, no sentido da perversão, que compactua a ideia de “estar sobre” em detrimento do “estar com”. O patriarcado, enquanto estrutura social, estabeleceu o poder como perversão do ser com o outro.

Em modelos panoptípicos, seja em modelo arquitetônico, passando pelo Grande Irmão de Orwell, até o BBB de Demol a regulação é feita pelo caminho do mandato e da obediência restritiva. Uma análise psicanalítica contemporânea, deve estar crítica e na contramão, do sistema patriarcal. Sem isso, seremos apenas juízes perversos, em um laboratório de experiências intensas e restritivas. A rigidez imposta pelo modelo exacerba um lugar inalcançável de poder, onde apenas a eliminação mantém a estrutura. Ele - o outro - sai, parte que me falta, para que eu consiga estar. O simulacro perfeito da estrutura doente: Panóptico, Pervertido e Patriarcal.

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