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RED PILL - A PERSISTIREM OS SINTOMAS UM ANALISTA DEVERÁ SER CONSULTADO.




“Rejeite a modernidade, abrace a masculinidade” - este é o título de um dos vídeos sobre masculinidade disponíveis no Youtube. O tema é facilmente encontrado em qualquer plataforma de Podcast, sempre conduzido por algum “mestre”, normalmente branco, aparentemente rico e conquistador de mulheres.

O ideal de homem tem nome: chama-se “Red Pill”, segundo a definição de Ferrari (2023) em matéria publicada no portal da USP, o movimento é conhecido pela supervalorização do masculino e pela crítica afiada aos direito das mulheres e LGBTs. É a partir disto que indago: O que está em jogo neste ideal de homem?

No filme The Northman, dirigido por Robert Eggers (2021) a masculinidade está explícita e escancarada. Os homens do drama nórdico exalam a virilidade via extrema agressividade, sinais de força, rivalidade e conquista territorial, retrata de forma mítica o homem da era viking. Por outro lado, é curioso pensar que alguns comerciais de desodorante do nosso cotidiano, também resgatam este aspecto selvagem, um exemplo é o vídeo daquela marca que pinta homens devastando a natureza, dirigindo automóveis grandes enquanto erguem machados e demais ferramentas pontiagudas como sinais de força e vitória. Força, ferramenta e conquista: signos referentes ao masculino na cultura, signos que apontam a performance do que é ser homem, como nos diz Judith Butler.

Na psicanálise, Freud apresenta o aspecto libidinal do masculino, e o coloca numa posição ativa em busca do objeto. Em A significação do falo, a atribuição acontece pela função fálica, longe da lógica biológica e mais próxima do discurso, o falo é o significante que ordena o ter ao lado dos homens, e o “não” dado pela função paterna, é o que intercede o desejo incestuoso com o grande Outro - para simplificar; a estrutura masculina depende de representantes/objetos que o protege e serve de máscara contra a própria falta no outro (LACAN,1998, p. 701), além de situá-lo na realidade (subjetiva).

Tanto o filme quanto o comercial, trazem estes elementos fálicos e orientadores do masculino, incorporados nas lanças, machados e espadas e na agressão como modo de satisfação, é esse o masculino que tentam resgatar no discurso do Red pill, daquele que tem o que o outro deseja.

Se o “Viking” de outrora é o homem ideal de hoje, como fica a diferença… deve ser ceifada? Conquistada pela força? As mulheres seriam bestas-feras, que precisam de domínio? Sem o objeto pontiagudo, o red-macho-pill parece perder a orientação sobre ser e estar no mundo.

Considero que a masculinidade é uma posição, circula no discurso com muitos outros símbolos, e pode ir além do portador do falo pontiagudo, pois se assim o é, todo homem será igualado ao potencial caçador e não haverá espaço para uma reconciliação com a própria posição passiva diante do mundo, bem como o reconhecimento do sensível e intangível na relação com o feminino, que está aquém do objeto. Coisa que as mulheres bem sabem.

O homem de nosso tempo parece estar alheio às mudanças do contemporâneo, e muita coisa mudou desde o período Arcaico, regredimos quando o ideal é pensado novamente como um bárbaro cheio de dinheiro e força - ninguém merece ser ferido por isto. Há outras ferramentas menos afiadas, signos e referências para performar a masculinidade, inclusive não ter grana para pagar o jantar e se abrir para a falta, a condição do amor ao contrário da posse.


Escrito por Vinicius Xavier.

Ex-aluno D’Alma. Psicanalista clínico, especialista em Semiótica e Análise da Cultura pela PUC-SP. Curador de conteúdo da página @atravessapsicanálise.

Edição: Jéssica Viana.


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