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UM CIDADÃO DE BEM DEFECOU NO SUPREMO TRIBUNAL E O QUE FREUD TEM A VER COM ISTO?

Atualizado: 23 de fev. de 2023



Com a esperança quase renovada, muitos brasileiros, sobretudo os mais jovens e adultos que se sentiram sufocados pelas ideias ebulientes, saídas do caldeirão rústico do conservadorismo cristão nos últimos 4 anos - assistiram de perto a glória de ter eleito seu partido político e, a pressão no campo democrático, uma semana depois, devido os ataques ao STF. Os ditos bondosos, carismáticos e religiosos; “cidadãos de bem”, quebraram com fúria e amadorismo o principal símbolo da ordem nacional, invadiram a casa da lei - a casa do povo, indo na contramão do ditado popular que diz: a voz do povo é a voz de Deus, reivindicaram o resultado das urnas e aboliram a vontade, de fato popular. Guiados por medo e por historinhas repleta de fantasmas, como nos livros infantis e sobretudo, financiados por velhos lobos alcoviteiros que às vezes os jornais anunciam como “o mercado”, “o empresariado”, “o partido fardado” e às vezes de “elite”, de “agro”, sem querer dizer exatamente o nome dos bois.

Aos berros de insanidades, muitos idosos e outros tidos como pai de família, defecavam, quebravam e exibiam pornograficamente em sua micro rede de voyeurs, provas explícitas contra si mesmos e seus caráteres fascistas. Tudo em nome de Deus, em nome do Messias. Repito, “cidadãos de bem”, religiosos, “santos”, defecaram na casa do povo! Que contradição, não?

Se a psicanálise toca nos avessos, este é um deles. Mas de que avesso se trata tamanha animalidade? Freud é pontiagudo nessa questão e seu texto sobre os fenômenos sociais pode nos ajudar a interpretar o ocorrido em 8 de janeiro de 2023.

Publicado a mais de 100 anos, o texto “psicologia das massas e análise do Eu” ainda serve para contornar as questões pulsionais e edipianas no contexto social, as ideias que estavam vedadas no setting analítico, ganham espaço fora, foram desenhadas como um corpo em massa, do qual o indivíduo aflito e sem condições de elaboração simbólica integra-se a ele, buscando de modo primário a satisfação e a resolução dos conflitos internos, como um bebê que chora pelo leite, ou, ao que cabe melhor no contexto dito acima - pela fralda suja que alguém precisa limpar.

Freud é categórico ao ver na libido investida na figura do líder, o substituto do pai, ora, o próprio “líder” ideológico, ao que apontam algumas camisetas vestidas pelos baderneiros, tinha como sobrenome o adjetivo hebraico, porém abrasileirado: Messias, como a etimologia aponta; é aquele escolhido, objeto, rei consagrado por Deus para fazer coisas especiais. Esta ideia parece encaixar perfeitamente no imaginário daqueles que se consideram desamparados, ou atacados pela angústia e amarguras de existir, mal-estar oriundo do Diabo e seus influentes, como pensam grande parte dos militantes religiosos.

Um grupo, além do amor, também se forma por oposição, é neste texto que Sigmund F. aponta o narcisismo das pequenas diferenças, facilmente identificável na relação de grupos rivais, que por incompatibilidade, se atacam.

Está aí, Direita contra Esquerda, o bem e o mal em combate - este é o cenário imaginário compartilhado nas redes sociais, que fomenta o narcisismo e o discurso neoliberal, repleto de promessas, ódio e pouca efetividade.


Além de “Mashiah” a figura do dito, cujo nome está saturado nos noticiários e conversas corriqueiras, está associado ao general, justamente a metáfora que Freud traz entre o Padre e o comandante militar, quem promete amar e proteger a todos da mesma maneira - traduzindo para os dias atuais; quem irá abençoar com riquezas e atacar o diferente ao lado.


Ainda em “psicologia das massas e análise do Eu”, Freud argumenta que a idealização comum em torno do líder é o que traz coesão e simultaneamente torna-se o ponto frágil do grupo, capaz de diluir como uma gota no oceano toda arquitetura e todo sentido, quando atacado. É a sensação do desamparo que aflige o Eu, a angústia de sentir-se só é o que desperta em cada um a necessidade de fazer parte de algo maior, de formar um corpo uno, que precisa estar integrado ao líder para se livrar da tormenta; como fazem os bebês ao se unir no outro-materno. Estes elementos estão contidos na gênese do conceito histórico de família.


A massa é impulsiva, nos diz Freud (1921) precisa ser satisfeita em todas as suas insaciáveis demandas, quando abalada por qualquer sinal de ameaça, é tomada por forças pulsionais primárias, consegue reagir pelo ódio via atos que visam a descarga da tensão, como vimos acontecer em formato de fezes e destruição.

São estes os elementos que ilustram o que está fora do discurso, materializando a própria porcaria no fenômeno, que, aliás, foi transmitido feito troféu e glorificado nos submundos da internet pelos simpatizantes do ato anti-democrático (e antisséptico).


Ou seja, a descarga pulsional sem intervenção da castração simbólica, sem o regime da lei que faz o contorno do que é ser humano na cultura, remete ao frágil e primário de nossa condição humana. O que pode fortalecer e aprimorar a existência em sociedade é a lei simbólica, compartilhada e soberana, que freia o sujeito de suas pulsões mal elaboradas, e dá sentido à vida em sociedade, em família e na História. Quem sabe um dia, tenhamos uma lei que proíba a invenção de um messias salvador da pátria e indefesos, não seria uma boa?

Só assim, cogito, é possível vislumbrar no horizonte a possibilidade de uma vivência em sociedade mais livre, integrativa e acolhedora dos desejos possíveis de serem realizados na vida em comum, garantindo a alteridade acima de tudo.

Se este texto pretende uma solução, pensemos em identificar, em ampla escala, o que há nas leis, capaz de garantir não só a coerção adequada e exemplar, mas a organização simbólica e cultural que faça sentido para as massas, que considere o gênero, a faixa etária, a orientação sexual e classe a que pertencem os oprimidos no Brasil, isto inclui até o indivíduo imaturo que se dispôs a esfaquear uma obra de Di Cavancanti no palácio do planalto - do contrário, todo lugar será passível de ser defecado. O que facilmente pode transformar esta nação num bolo de esterco, expelido por um gado faminto e furioso.


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Arte e texto de:

Vinicius Xavier

Ex-aluno D’Alma. Psicanalista clínico, especialista em Semiótica e Análise da Cultura pela PUC-SP. Curador de conteúdo da página @atravessapsicanálise.


Edição: Jéssica Vianna


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