QUANDO A ESTRUTURA SOCIAL ENCONTRA A ESTRUTURA PSÍQUICA

Atualizado: 23 de jun.





Quem no Brasil proletário não passou a infância solapado de ditos populares como: “quem tudo quer nada tem”, “Deus ajuda quem cedo madruga”, “para pobre (ou corno) todo castigo é pouco”, “se a esmola é demais o santo desconfia”, “estudar pra ser alguém na vida”, entre outros…?


Quem nunca acreditou na ideia de que precisa fazer um esforço sobrehumano para merecer algo que seja minimamente digno? “O que fácil vem, fácil vai”.


Quem nunca pensou que merecia mais do que aquele trabalho bosta, aquele ônibus lotado, aquela vida cinza?


Quem nunca duvidou se merecia todo aquele amor que aquele alguém dedicava?

Quem já se autodiagnosticou com a síndrome da impostora?


Quem já ouviu um trabalhador autônomo há 12 horas detrás de um volante, dizendo que era patrão de si mesmo e bastava trabalhar 20 horas por dia pra ganhar direitinho?


Percebe como a mentira da meritocracia capitalista, incutida na gente desde a infância, faz com que cada um de nós tenha ainda hoje, adultos, a dúvida e necessidade de provar pra nós e pra todo o mundo que merecemos algo bom, belo e justo, adequado ao nosso desejo e que não seja a custo da nossa saúde mental e física?


Dentro e fora da formação em psicanálise, a psicanalista, CEO do Instituto D’Alma, Stephanie Jobst, cita bastante um livro: “o neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico” de Vladmir Safatle, e a escola como um todo considera, sobretudo no Brasil de 2022, que leitura é indispensável ao psicanalista e que as condições práticas, sociais, econômicas e culturais que cincundam o sujeito, são muitas vezes determinantes de alguns de seus mais profundos sofrimentos.


“O propósito da psicanálise não é normalizar o sujeito. Não é fazer com que ele se adapte à estrutura.


A proposta é ajudá-lo a encontrar uma maneira de viver seus mais profundos desejos.” - disse Stephanie Jobst dia desses pelos corredores da escola e a gente ficou pensando que numa sociedade onde o seu desejo é repudiado, num sistema onde o seu desejo é uma mercadoria, e numa estrutura onde dependendo da cor da pele e/ou do gênero, nem desejo você deveria ter, as vezes o jeito de SER é transformar não só o que está dentro, como o que está fora.


Em parte é responsabilidade da psicanálise, não como prática clínica, mas como disciplina humana, a de atentar a comunidade para a necessidade de questionar o que é normal, o que é individual e pessoal, o que é estrutural e coletivo e para a pergunta que se faz quando o desejo encontra a impossibilidade de SER: o que é que você vai fazer com isto?

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